Ricardo Reis, In Odes

Ricardo Reis (19 de setembro de 1887) é um dos heterónimos de Fernando Pessoa. Na sua biografia não consta a sua morte. Mais tarde Ricardo Reis será o protagonista de um dos maiores romances de José Saramago, O ano da Morte de Ricardo Reis, situando-a em 1936, no ano seguinte à morte de Fernando Pessoa. Numa carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro, Pessoa revela que Ricardo Reis nasceu em 1887 (embora não se recorde do dia e do mês), no Porto. Médico, pagão, alheado da realidade que o rodeia, cerebral sem ser racionalista, exilado voluntariamente no Brasil por ser monárquico, tinha formação latinista e semi-helenista (o poeta Horácio é o seu mestre). Fernando Pessoa atribui a este heterónimo um purismo que considera exagerado e refere que escreve em nome de Ricardo Reis, “depois de uma deliberação abstracta, que subitamente se concretiza numa Ode”.

Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande) veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular (não ao estilo de Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade) e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo (tinha nascido, sem que o soubesse, o Ricardo Reis). [1]

Seguimos na senda com este retrato de Lídia sentada à beira do rio, uma das suas belas odes onde ecoa a longínqua influência clássica, esbatendo as fronteiras temporais e geográficas que a palavra poética não tem, sendo, posteriormente, recuperada por Sophia, a sacerdotisa…

[1] In Casa Fernando Pessoa. Biblioteca Particular. Ricardo Reis. Disponível em Ricardo Reis · Casa Fernando Pessoa

 

VEM SENTAR-TE COMIGO, LÍDIA, À BEIRA DO RIO.

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa.
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado.
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz.
Nem invejas que dão movimentos de mais aos olhos.
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria.
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento –
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim – à beira-rio.
Pagã triste e com flores no regaço.

Ricardo Reis in Odes

Para mais informação sobre o poeta consulte o palavras27.oeiras.pt

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