Alda do Espírito Santo é uma figura sagrada na polis das Ilhas de São Tomé e Príncipe. Nasceu na cidade de S. Tomé, mudou-se para Portugal com a família, fixou residência em Lisboa e morreu em Angola. Um percurso que iria marcar a sua personalidade literária e política. Com uma poesia marcada pela beleza das Ilhas e das suas gentes, foi também uma resistente e lutadora pela liberdade e independência daquela que é e sempre será a terra fundadora, o chão das suas raízes e dos seus versos, a Água Grande que banha os pés: o povo São Tomense.
A imponência e a fortaleza do seu espírito, a sua determinação, a sua voz inconfundível foram e são determinantes para aquele que foi o abrir das grilhetas do colonialismo e o regresso à origem da sua cultura e língua. O verde luxuriante, a fruta-pão de todos os dias, o rosto negro dos seus irmãos, a bruma do rio, quase sempre envolto na névoa, onde se esconde e canta o pássaro mais belo, o ossobó.
Sentada no areal da eterna Baía de águas plácidas, azuis e cinzentas, sombreadas pelas pedras e a abundância da vida, a poeta evoca a dureza, o preconceito, o estigma, a distância e o abandono. Reclama esse lugar a que qualquer ser humano deve aspirar, não apenas como um direito, mas como fazendo parte da nossa condição humana e que nenhuma negritude deve apagar: liberdade, igualdade, autodeterminação e justiça.
Tal como Lídia das Odes de Ricardo Reis ou da poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen, é a exaltação da mulher e dos seus desafios que continuam, ontem como hoje, a interpelar-nos a fazer uso da nossa voz e a imagem da água como metáfora da liberdade que flui sem amarras.
Prosseguimos no tronco da árvore entoando o verso da poeta como uma profecia
É nosso o solo sagrado da terra-poesia de protesto e luta.
Em torno da minha baía
Aqui na areia,
Sentada à beira do cais da minha baía
do cais simbólico, dos fardos,
das malas e da chuva
caindo em torrente
sobre o cais desmantelado,
caindo em ruínas
eu queria ver à volta de mim,
nesta hora morna do entardecer
no mormaço tropical
desta terra de África
à beira do cais a desfazer-se em ruínas
abrigados por um toldo movediço
uma legião de cabecinhas pequenas,
à roda de mim,
num voo magistral em torno do mundo
desenhando na areia
a senda de todos os destinos
pintando na grande tela da vida
Uma história bela
para os homens de todas as terras
ciciando em coro, canções melodiosas
numa toada universal
num cortejo gigante de humana poesia
na mais bela de todas as lições
HUMANIDADE.
Alda do Espírito Santo, O solo sagrado da terra (1926 – 2010)
Para mais informação sobre o poeta consulte o palavras27.oeiras.pt
Conheça os poetas representados no Parque. A poesia anda por aqui…

