Sophia de Mello Breyner Andresen é considerada uma das maiores poetas do século XX, cuja obra continua a influenciar gerações. Musa da vida e da liberdade fez parte de uma geração de mulheres extraordinárias que contribuíram para a construção da democracia, com lutas e conquistas importantes. O seu grande legado são as palavras e a poesia onde a sua história é contada como a Mulher de inúmeros rostos: a menina, a musa da liberdade, a revolucionária, a política, a crente, a enigmática, a contadora de estórias, a poeta das ilhas e dos templos, a helénica, a mulher da palavra inaugural com cheiro à maresia e a sal, a escritora da infância e dos sonhos, entre muitas outras. Por isso mesmo, é possível dizer que todos nós, de alguma forma, já fomos tocados pela sua poesia, como leitores do mundo e da vida, quanto mais não seja no fundo da reminiscência de uma infância perdia (a nossa) que a rememoração e leitura dos seus textos resgata e vivifica.
Recuperamos este excerto que abre a Ode que Sophia escreveu em homenagem a Ricardo Reis e que gravou no livro intitulado Dual. Um título que não surge por acaso, já que está perpassado desse diálogo que sempre habita os versos poéticos. Contudo, o interlocutor intertextual não é o homenageado, mas Lídia, nome de uma personagem que já surge nas Odes de Horácio, um dos maiores poetas da Roma antiga e que vai ser cantada por muitos outros, como Almeida Garrett, Filinto Elísio, José Tolentino de Mendonça, Natália Correia, Ricardo Reis (Fernando Pessoa), e, claro, Sophia de Mello Breyner Andresen.
Ainda assim, se este diálogo é devedor do vocabulário e estrutura formal da Ode de Ricardo Reis, o tom é muito diferente deixando uma advertência. Dirigindo-se a Lídia, Sophia não faz nenhum convite amoroso, real ou ficcional, mas alerta esta ou qualquer mulher para os perigos de um discurso que anula a sua vontade e ação. Por isso, não se sentem à beira do rio como Lídia, rememorando o rasto do não-vivido, mas mergulhem no rio e na sua turbulência e façam das vossas vidas e dos vossos dias um tempo extraordinário.
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[1] In Casa Fernando Pessoa. Biblioteca Particular. Ricardo Reis. Disponível em Ricardo Reis · Casa Fernando Pessoa
I
Não creias, Lídia, que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiámos colher.
Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade para aquele que hesita.
Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não-vivido deixa.
Não creias na demora em que te medes,
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o seu próprio passo.
Sophia de Mello Breyner Andresen, (III Homenagem a Ricardo Reis), Dual (1919 – 2004)
Para mais informação sobre o poeta consulte o palavras27.oeiras.pt
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